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"A lição de casa é feita na classe e a aula... é dada em casa!"

publicado: 12/12/2016  atualizado: 25/01/2017

Atualmente, na maior parte das instituições de ensino brasileiras, perdura o modelo tradicional de ensino: o professor expõe os conteúdos e os alunos ouvem e anotam explicações para, em seguida, estudar e fazer exercícios.

Porém, uma ideia simples, que está revolucionando a forma de aprendizagem, tem, por metodologia, inverter papéis entre alunos e professores.

O aluno é o protagonista e aprende de forma mais autônoma, com o apoio de tecnologias. E, para tanto, se apoia na tecnologia para cumprir seu principal papel: transferir a responsabilidade da aprendizagem do professor para o aluno.

Nova didática vem sendo adotada de forma crescente em vários países, colocando-se como uma das tendências da educação.

foto: Universidade de Stanford/Divulgação

O que é a Sala de Aula Invertida?

A sala de aula invertida (flipped classroom) é uma metodologia de ensino que propõe a inversão completa do processo de aprendizagem tradicional do aluno: a aquisição do conhecimento não acontece apenas em aulas expositivas na escola, mas também fora dela, com a ajuda de recursos tecnológicos.

Infográfico de Sala de Aula Invertida. Fonte: Google Educator 
Alunos
A sala de aula invertida concentra-se em fazer com que os alunos se envolvam mais com seu material de estudo e se transformem em aprendizes ativos. Nesse processo, os estudantes podem ter contato com os programas curriculares em casa e orientados a estudar sobre um tema fora da sala de aula, em seu tempo livre, sendo incentivados a processarem o conteúdo antes de chegarem à sala de aula, bem como  estimulados a usar recursos tecnológicos tanto para enriquecer as pesquisas quanto para apresentar o material posteriormente para a turma. Espera-se que dessa forma possam aprender mais e melhor já que controlam quando, onde e como aprendem. Por exemplo, um aluno, ao assistir vídeos, poderá pausar e repetir o conteúdo de acordo com seu ritmo e compreensão. Os estudantes que aprenderem rapidamente os conceitos não perderão tempo com explicações do professor e poderão fazer mais exercícios e atividades práticas.

Os estudantes, portanto, tornam-se responsáveis pelo seu próprio aprendizado. Ao conhecer o conteúdo antes de chegar à classe, o aluno pode utilizar o tempo das aulas principalmente para tirar dúvidas. Assim, uma vez na classe, também poderão aprofundar o conhecimento, trabalhar problemas e conceitos por meio da aprendizagem colaborativa

Imagem: Getty Images Montagem
O modelo da sala de aula invertida é capaz de despertar o interesse da classe e estimular a participação ao mesmo tempo em que proporciona desenvolvimento de habilidades como responsabilidade, autonomia e disposição para trabalhar em equipe. Entre outras coisas, o aluno aprende a aprender.

Professores

Enquanto na sala de aula tradicional o professor apenas transfere a informação para os alunos, na sala de aula invertida ele deixa de ser o único detentor do conhecimento – para torna-se orientador e  mediador entre os estudantes e o conhecimento – e, com isso, dedicando-se ao aprofundamento de conteúdo, análises, avaliações e dinâmicas, deixando de lado o método tradicional de ensino unilateral.
Na sala de aula, os professores atendem os alunos de forma individual e em grupo, transformando a aula em uma conversa, mudando o layout tradicional das cadeiras enfileiradas. Os vídeos também ajudam quem precisou faltar e precisa de aulas de reposição.

Nesse contexto, onde praticamente toda a dinâmica da aula se altera, é essencial capacitar o professor para aplicar o modelo com sucesso. Isso começa em uma mudança de paradigma ou forma de pensar. 

 “O professor necessita ser convencido que o método irá facilitar sua vida e a dos alunos. Se não houver isso, não adianta capacitar, pois o professor estará reticente em usar a metodologia, o que irá atrapalhar seu desempenho. Por exemplo, a utilização de uma leitura prévia antes da aula e de deveres de casa já são exemplos de uma sala de aula invertida”.
Andrea Ramal, educadora, diretora do GEN | Educação.

Nesse método, o papel do professor é valorizado como orientador dos percursos de pesquisa e mediador entre estudantes e conhecimentos. Além disso, pode ajudar a desenvolver competências como capacidade de autogestão, responsabilidade, autonomia, disposição para trabalhar em equipes.


imagens: Getty Images
As aulas também se tornam muito mais dinâmicas, já que após as apresentações o professor pode usar sua criatividade para reforçar o conteúdo através de atividades como debates e estudos de caso, sempre estimulando o intercâmbio entre os colegas.

Tecnologia
A tecnologia, por sua vez, é o suporte para que os estudantes acessem conteúdos e informações antes da aula. O tempo em sala, então, é otimizado, ou seja, usado para aprofundar conceitos e aprendizado, além de dedicado à discussões, dúvidas, pontos-chave, realização de exercícios, atividades práticas e dinâmicas em grupos.

Já que o envolvimento dos alunos é vital para a aplicação da Sala de Aula Invertida, o conteúdo deve ser bem planejado e de alta qualidade. Felizmente, há muitos recursos tecnológicos à disposição dos professores, dando-lhes uma maior margem para a experimentação e personalização de conteúdo.
sala de aula invertida

A escola também pode montar vídeo-aulas mais elaboradas, com testes ou atividades online que avaliam o que o aluno aprendeu com o vídeo. O retorno imediato ajuda a identificar pontos chaves e a esclarecer dúvidas iniciais. O conteúdo do vídeo pode ser complementado com material de reforço como apostilas, trechos de livros, filmes e outros recursos. Os arquivos podem ser compartilhados com toda a turma em programas como o Google Docs.

Para o estudo em casa, os alunos contam com recursos como vídeos, textos, áudio, games, entre outros. No entanto, a metodologia não implica necessariamente em repensar todo o material didático hoje disponível.

Vídeos, podcasts e blogs são alguns dos recursos que podem ser utilizados na sala de aula invertida. Com uma conexão à internet, o aluno pode acessá-los em computadores, tablets e celulares na escola ou em casa. O educador pode criar videoaulas com programas de screencasts (softwares de captura de tela) ou selecionar vídeos e palestras da internet. A recomendação é que o vídeo seja focado em um único tema, com explicações curtas e objetivas, de 8 a 12 minutos. O vídeo também pode trazer perguntas-chaves para o aluno responder quando retornar à aula.

Na sala de aula invertida, as redes sociais não se limitam ao Facebook e ao compartilhamento de fotos. Estudantes podem usar ferramentas com chat, blogs da turma, sites wiki, pesquisas e projetos colaborativos que podem ser transformados em um site feito tanto pelo professor quanto pelos alunos.

Não existe um modelo ideal ou único da metodologia. A escolha do formato depende de fatores como o acesso à tecnologia e o perfil dos alunos. Como a sala de aula invertida "libera" mais tempo, os exercícios em classe e os trabalhos práticos com o apoio direto do professor são fundamentais e têm a atenção individual a cada aluno. Durante a aula, além de exercícios, o professor também pode aumentar a experiência de aprendizado de formas criativas utilizando recursos como jogos, atividades artísticas, aplicativos do iPad e recursos multimídia como suporte

Avaliação

Na pós-aula, o estudante pode fixar o que aprendeu e integrá-lo com conhecimentos prévios, por meio de atividades como, por exemplo, trabalhos em grupo, resumos, intercâmbios no ambiente virtual de aprendizagem.

O processo pode ser permeado por avaliações para verificar se o aluno leu os materiais indicados, se é capaz de aplicar conceitos e se desenvolveu as competências esperadas.
Em resumo, a proposta envolve prover aulas cada vez menos expositivas, porém mais produtivas e participativas, capazes de engajar os alunos no conteúdo e utilizar melhor o tempo e conhecimento do professor, além de estimular o intercâmbio entre a turma.


“A metodologia tradicional deixa o aluno num papel passivo, simplesmente ouvindo as explicações do professor. Ao inverter esse modelo e fazer com que o aluno assista às aulas fora do ambiente da escola ou universidade, há um aumento na presença e participação em sala de aula. Quando um conteúdo totalmente inédito é apresentado ao aluno, a introdução se dá, em geral, por meio de textos e videoaulas que apresentam os conceitos básicos e exercícios resolvidos como exemplos. A leitura antecipada incita o raciocínio prévio e eleva o papel do professor. Esse passa de expositor para tutor, auxiliando e incentivando o aprendizado mais profundo do aluno quando ele traz dúvidas, raciocínios e discussões prévias”.
Andrea Ramal, educadora, diretora do GEN | Educação.



História
fonte: divulgação
Desde os anos 1990 pesquisadores estudam o método, mas foi em 2007 que o conceito se popularizou com os professores norte-americanos Aaron Sams e Jon Bergmann. Os dois começaram a gravar vídeos de suas aulas de química em PowerPoint, incluindo voz e animações e a disponibilizar o material na internet para os alunos que faltavam. As aulas ficaram populares no YouTube e eram acessadas por gente de todo os Estados Unidos. A partir daí, os professores começaram a participar de palestras e a disseminar o movimento do flipped learning.

A metodologia tem alcançado resultados positivos, com impacto nas taxas de aprendizagem e de aprovação, como também no interesse e na participação da turma. A didática foi testada e aprovada por universidades classificadas entre as melhores do mundo.


Em 2012, a Escola de Medicina da Universidade de Stanford, nos EUA, criou um projeto para estimular o ensino a distância. Uma das experiências de sucesso foram as vídeo-aulas de bioquímica, uma matéria optativa. Com mais tempo em classe, os alunos eram estimulados a resolver problemas e contavam com um tutor para realizar exercícios práticos. A porcentagem de alunos que compareceram às aulas aumentou de 30% para 80%. O departamento de informática da universidade também ajuda na criação de vídeo-aulas com quiz online.

Uma pesquisa de 2012 feita pela organização Flipped Learning, que reúne professores que são adeptos da sala de aula invertida, ciências (46%) e matemática (32%) são as matérias mais adaptadas para esse método. Um dos motivos é que são matérias cujas demonstrações práticas são mais fáceis na sala de aula. Sendo assim, toda a parte teórica é feita em casa e com os materiais de apoio.

Segundo um levantamento feito na Universidade de British Columbia, nos Estados Unidos, com professores de Física que aplicaram a metodologia, dentre os quais Carl Wieman, prêmio Nobel de Física em 2001, houve um aumento de 20% na presença e 40% na participação dos alunos com o modelo. Além disso, as notas dos alunos participantes foram duas vezes maiores que as das classes que utilizaram a metodologia tradicional.

Na Universidade de Michigan, um estudo mostrou que os alunos aprenderam em menos tempo. O MIT (Massachusetts Institute of Technology) considera a Flipped Classroom fundamental no seu modelo de aprendizagem. O método é adotado em escolas da Finlândia e vem sendo testado em países de alto desempenho em educação, como Singapura, Holanda e Canadá.

Na Universidade de Harvard, por sua vez, professores de Matemática conduziram um estudo de 10 anos em suas classes de Cálculo e Álgebra e descobriram que alunos inscritos em aulas invertidas obtiveram ganhos de 49 a 74% na aprendizagem em relação aos alunos inscritos em aulas tradicionais.

fontes: Thais Paiva e Educação-UOL


leia também:
Sala de aula invertida na Unimonte

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